Às vezes, é preciso dizer o que ninguém quer ouvir. Existe uma imagem dourada da Suíça, um país de perfeição e relógios caros, mas a minha experiência foi tudo menos um conto de fadas. Hoje, quero falar sobre o que significa viver num lugar onde, mesmo depois de dez anos, te sentes permanentemente de passagem.
Zurique foi a minha casa durante uma década, mas nunca foi, na verdade, um lar. O problema não foi a língua, que aprendi e usei, o problema foi a integração, ou a falta dela. A cultura local é fechada, os habitantes locais não são, por natureza, acolhedores para com o estrangeiro, e tu sentes isso em cada interação. Na comunidade expatriada construí uma segunda família, e esse apoio foi o que me manteve à tona durante tanto tempo. Mas, lá fora, na vida real, eu era apenas alguém a quem estavam a fazer um favor, vivendo sob um escrutínio constante.
Depois, havia o peso da realidade. Viver na Suíça é caro, um custo de vida que te consome não apenas a conta bancária, mas a alma. Lembro-me, com uma clareza que ainda dói, que o pior dia de cada mês era o dia de receber o salário. Eu ganhava bem, mas quand me sentava à secretária, pagava todas as contas e olhava para o extrato, invariavelmente, acabava a chorar com o pouco que restava. Tinha de gerir o desemprego do meu companheiro da altura, que se arrastou durante seis anos, e a pressão financeira era asfixiante. A vida era dura, era um esforço constante apenas para existir, para pagar as contas, para respirar.
Além disso, Zurique sempre me pareceu pequena, uma cidade onde tudo o que é interessante é proibitivo se não tiveres um orçamento ilimitado. Sentia que não podia respirar, que o espaço ao meu redor estava a encolher. Eu precisava de sentir que a minha presença tinha valor, precisava de ver pessoas que apreciavam a vida, de sentir que não tinha de pedir desculpa por estar a ocupar um lugar que não me pertencia.
A minha saúde mental começou a pagar a fatura de viver num ambiente que não me nutria. As muitas viagens e o consequente tempo que passava fora do país mascaravam a realidade, cada desculpa era boa para sair dali, mas a realidade tornou-se um peso insustentável. Eu vivia uma vida que não era real, a minha casa era o mudo e o lugar onde eu vivia era onde eu mais me sentia uma estranha.
Sair da Suíça não foi uma derrota, foi a maior prova de amor próprio que poderia ter dado a mim mesma. Foi o momento em que escolhi que a minha felicidade valia mais do que o conforto de uma rotina que, na verdade, me estava a destruir. Precisava de espaço, precisava de luz, e precisava de voltar a encontrar uma casa.