Depois do apito final

Durante os anos em que trabalhei na FIFA, em Zurique, havia uma regra de ouro que nos repetiam até à exaustão: o futebol não se mistura com a política. Toda a gente sabia, lá dentro e cá fora, que a neutralidade absoluta é uma ilusão e que essa linha invisível foi pisada vezes sem conta. Apesar disso, eu sempre acreditei verdadeiramente na força do futebol para fazer o bem. É uma língua universal que aproxima as pessoas, que cria pontes e que tem uma capacidade única de transformar comunidades inteiras quando é usada para o desenvolvimento social e pelas boas razões.

O problema é que o rumo que as coisas estão a levar, especialmente com os últimos acontecimentos à volta do Mundial, já não tem nada a ver com o lado bonito do desporto. Há uma fronteira muito clara entre usar o impacto do jogo para ajudar comunidades e ver o futebol ajoelhar-se perante o poder político só para agradar a chefes de Estado ou para manipular decisões à descarada.

Quando as regras começam a ser alteradas por causa de pressões políticas e conversas de bastidores, é o próprio desporto que fica comprometido. Os erros acontecem, as falhas humanas fazem parte e as desculpas devem ser pedidas quando é preciso, mas o que se passa dentro de campo tem de ter um peso absoluto. Quando o árbitro apita para o fim da partida, o jogo acabou.

Permitir que aquilo que se decide no relvado passe a ser negociado em salas de reuniões por conveniência política é abrir uma porta incrivelmente perigosa. Retira o desfecho de um campeonato do esforço dos atletas e entrega-o aos interesses de gabinetes, destruindo a integridade pela qual milhões de adeptos e profissionais lutam todos os dias.

Quando deixamos que o jogo continue a ser jogado fora das quatro linhas e depois do apito final, o futebol deixa de o ser.

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