O coração da casa

A casa dos meus pais mudou ontem, e o silêncio que ficou é daqueles que pesa no peito. Ela chegou há catorze anos, precisamente um ano depois de eu ter arrumado as malas para ir viver para o estrangeiro. A ironia disto tudo é que, ao início, o meu pai nem sequer queria um cão. O plano para aliviar a síndrome do ninho vazio funcionou tão bem que ela acabou por passar de uma visita contrariada para a luz dos olhos dele, a sua sombra constante e o centro de todas as rotinas.

Para mim, voltar a casa nas férias ou passar o Natal era sinónimo de um ritual obrigatório, aterrar e ir direta para a praia com ela. Durante a pandemia, chegámos a passar três meses inteiros juntas em Portugal, o que tornou aquele isolamento muito mais suportável. Lembro-me tão bem de a ver caminhar pela areia, de cabeça erguida e trela na boca. Quem se cruzava connosco não resistia a brincar, diziam que era uma cadela que se passeava a si mesma, e a verdade é que ela avançava orgulhosa, com a certeza de que quem mandava era ela.

Tinha uma personalidade única, feita de uma inteligência viva e de pequenas rotinas que ritmavam os dias. Todas as manhãs, a chegada do padeiro à porta era um acontecimento: recebia-o com um entusiasmo ruidoso, porque sabia perfeitamente que ele trazia sempre um pãozinho extra escondido no bolso só para ela. Adorava as viagens de carro, mas bastava as rodas pararem para começar a andar de um lado para o outro, impaciente com o fim da marcha. E ai de nós se decidíssemos sair de casa sem ela, amuava e virava a cara, num drama silencioso que continuava bem depois de regressarmos. Era leal, simpática, sociável, mimada, bruta e feliz. Recebia as muitas visitas que passavam lá por casa de cauda a abanar e não desperdiçava uma festa. Mesmo quando as teias da velhice lhe começaram a toldar os movimentos e a audição, o entusiasmo de me ver chegar para mais umas férias era sempre o mesmo. Assim que me sentia o cheiro entrava em euforia, e não havia malas ou portas que segurassem os seus 30kg de amor.

A dor de a perder é imensa, por ter preenchido tanto as nossas vidas durante mais de uma década. Este verão, não vou ser recebida em festa à saída do carro. Não a vou levar para um passeio vagaroso junto à ria. Não lhe vou fazer a tosquia habitual que a deixava mais fresca. Fica a saudade profunda de uma cadela extraordinária que conquistou o seu espaço, mudou a nossa dinâmica familiar e trouxe uma alegria que vai ficar guardada connosco para sempre.

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