Em 2010, saí de Aveiro e iniciei uma jornada que me levou a viajar pelo mundo. Durante mais de uma década, a minha vida mediu-se em fusos horários, passaportes carimbados e malas prontas. Vivi em Zurique, passei dois meses em Moscovo e acumulava várias semanas por ano dentro de aviões. A minha carreira levou-me a trabalhar e a viajar por locais tão distintos como São Francisco, Miami, Maputo, Goa, Londres, Dakar, Dar es Salaam, Nouakchott, Nairobi ou Lagos. Foi um período de uma intensidade incrível, onde exerci a minha profissão com paixão, amei profundamente e dei tudo o que tinha, e por vezes até o que não tinha.
Depois chegou a pandemia e com ela veio uma paragem forçada que alterou completamente o meu rumo. Enfrentei o confinamento e o choque de gerir o quotidiano num país onde, na verdade, nunca tinha vivido a sério, e percebi que era profundamente infeliz. Foi no meio desse isolamento que senti a necessidade urgente de assentar e de construir a minha própria família, em fins de 2021.
As voltas da vida, no entanto, ditaram que essa família se perdesse, ou pelo menos a forma como a tinha idealizado. No início de 2024, a missão era reconstruir a minha carreira num novo país, com um bebé, os meus dois Frenchies e a determinação de quem não tinha escolha. Instalei-me na região de Paris, e criei um ecossistema independente, seguro e totalmente meu, onde finalmente comecei a sentir-me em casa.
Este blogue é o relato de toda esta bagagem. Vivi muito, mudei de cenário dezenas de vezes e passei por transformações profundas ao longo dos anos, por isso escrever tornou-se a minha ferramenta para não perder o rasto da minha própria história. Escrevo para relembrar o que o tempo tenta apagar, para reviver e processar o bom e o mau, e para que, quem sabe, um dia o meu filho possa ler estas páginas e conhecer, sem filtros, quem foi a mãe dele.