A geometria do recomeço

Olhar para trás, para a mulher que eu era há dez anos, é quase como observar uma personagem de um livro que li há muito tempo. Quando entrei nesta história, eu era uma versão de mim que mal reconheço hoje, era jovem, impulsiva, imatura e movia-me por instintos que ainda não conheciam o peso da responsabilidade real. Quando a porta finalmente se fechou, a mulher que saiu não era a mesma que tinha entrado. Saí mãe, uma identidade que nunca tinha exercido sozinha, e fi-lo numa geografia que, embora amada, não é a minha, sem o amparo da família por perto, acompanhada apenas pelos meus dois cães e por um pequeno ser de pouco mais de um ano que dependia inteiramente de mim para viver.

Aprender a caminhar de novo foi, primeiro, um processo de sobrevivência bruta. Primeiro, veio a negação, seguida de um sentido de injustiça tão agudo que chegava a ser físico. O abandono não foi apenas o fim de um contrato emocional, foi o desmoronar de um plano de vida. Convenci-me, em noites de vigília, de que nunca mais encontraria alguém que quisesse partilhar a vida com uma mulher com um filho, e, numa reação de autoproteção feroz, decidi que também não queria ninguém a invadir o nosso espaço.

Depois, veio a fase da autossuficiência feroz, aquele estado de espírito em que decidimos que somos o nosso próprio exército. Cheguei a equacionar, com uma seriedade que hoje me espanta, ter um segundo filho sozinha. Queria garantir que o meu pequeno não ficasse isolado no mundo se eu faltasse, era a minha mente a tentar construir um forte para compensar a ruína do que eu achava ser a minha vida. Foram tempos em que me arrastei pelos dias, movida apenas pela consciência de que não tinha o direito de falhar, ele precisava de mim inteira, mesmo quando eu me sentia em pedaços.

Mas o verdadeiro desafio da reconstrução surgiu quando aprendi a viver a minha nova dualidade. Hoje, a minha vida divide-se em duas realidades distintas que coabitam em mim. Há os dias em que sou 100% mãe, em que a casa transborda de brinquedos, risos e uma exigência física que me esgota, mas que me preenche de um propósito absoluto. E depois, há os outros dias. Aqueles em que o meu filho passa tempo com o pai e a casa mergulha numa quietude que, ao início, me assustava.

Redescobrir-me nestes intervalos de solitude foi uma jornada desconcertante. Deixar de ser apenas o suporte de alguém para voltar a olhar para a Catarina. Hoje, quando o meu filho passa tempo com o pai, enfrento uma dualidade que muitas mães escondem por pudor, sinto um alívio profundo por poder descansar, por poder ser apenas a Catarina durante um tempo limitado, mas esse fôlego vem quase sempre de mãos dadas com uma pontada de culpa. É estranho sentir-me bem por estar sem ele, é um conflito constante entre a necessidade de oxigénio e o peso da ausência.

Percebi que a vida não é o desastre que eu antevi nas noites mais escuras. Aprendi que posso ser o porto e o barco, que posso sentir falta dele e ao mesmo tempo valorizar o meu tempo sozinha. Esta nova Catarina, que nasceu dos escombros de uma relação de dez anos, é muito mais sólida do que a rapariga impulsiva que eu era. A minha solitude, longe de ser um castigo, tornou-se o espaço onde finalmente me encontrei de verdade, sem pressas e com a certeza de que a minha força não vem da ausência de medo, mas da capacidade de continuar a andar, mesmo quando o caminho é novo.

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