A primeira forma de amar

Há canções que nos apanham desprevenidas, sem defesa. Escrevo quase sempre sobre a maternidade e sobre a exigência diária de criar um rapaz, mas ao ouvir Daughters do John Mayer, o chão fugiu-me por razões completamente diferentes. As lágrimas vieram sem pedir licença, e não foram lágrimas de mãe. Naquele instante, despi todos os papéis que acumulei com o tempo e fiquei apenas com a memória de ser filha. 

A canção toca num ponto muito simples e delicado: a forma como somos amadas na infância é o primeiro molde onde tentamos encaixar o amor na vida adulta. Antes de aprendermos a escolher quem nos acompanha, fomos crianças a absorver a presença, o olhar ou o silêncio daqueles que deviam ser o nosso amparo. Se o afeto foi incerto ou se a proteção teve de ser conquistada, a mulher adulta cresce a carregar essa hesitação silenciosa, a dúvida miudinha de não saber se pode simplesmente pousar a cabeça sem que o chão volte a falhar.

É um exercício doloroso, mas profundamente libertador, olhar para a nossa forma de amar em adultas e perceber de onde vêm certas resistências. A dificuldade em confiar plenamente, o sobressalto constante perante a vulnerabilidade ou a incapacidade de pousar os braços e aceitar a doçura do outro raramente começam nas relações de hoje. São, tantas vezes, o eco daquela criança que aprendeu a estar sempre atenta para não ser apanhada de surpresa pela ausência ou pelo desencanto.

Olhar para essa fragilidade sem julgamento é talvez o passo mais bonito que podemos dar. Acolher a filha que fomos com a doçura que ela precisava de ter recebido, aceitar o peso das nossas origens e perceber que, mesmo quando o passado não foi perfeito, ainda vamos a tempo de nos dar a paz que merecemos.

So fathers be good to your daughters,
daughters will love like you do,
girls become lovers who turn into mothers
so mothers be good to your daughters too.

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