A procura de um novo bairro para as minhas memórias

Há muitos anos, quando decidi mudar as minhas peripécias do Blogspot para o Sapo, procurava apenas uma plataforma mais próxima, mas acabei por encontrar um verdadeiro bairro digital. Uma comunidade viva de pessoas que partilhavam histórias reais. Sempre tive uma ligação muito mais profunda com a palavra escrita, com o ritmo dos parágrafos e a textura dos relatos alheios. Por isso, mesmo quando a vida me impôs pausas longas e me afastou da escrita ativa, continuei a adorar passear pelos blogues dos meus vizinhos, a ler as suas rotinas e a manter vivo o cordão umbilical com a blogosfera.

O anúncio do encerramento do Sapo, no início deste ano, trouxe uma inevitável pontada de tristeza. Provavelmente uma decisão comercial, compreensível num mundo que lê cada vez menos e consome conteúdos a uma velocidade vertiginosa. No entanto, colocou-me perante o prazo prático de resgatar o meu histórico antes do verão. Na pressa de não perder o rasto do meu passado, escolhi o Blogger de forma quase mecânica. Parecia a ferramenta mais familiar e rápida para salvaguardar os meus textos. O que eu não esperava era o impacto silencioso que esse processo de arrumação ia desencadear dentro de mim.

Ao reler as minhas velhas histórias e ao reabrir gavetas de memórias que o quotidiano já tinha adormecido, senti uma necessidade avassaladora de voltar a pegar nas palavras. Revivi episódios que tinha completamente esquecido e percebi como é fácil parar de lembrar. Ficou claro que tinha de continuar a escrever, para relembrar sempre que necessário, para regressar, para talvez um dia contar ao meu filho quem foi a mãe dele, para reviver o bom e o mau, because cada peripécia faz parte de quem eu hoje sou.

Mas o Blogger era uma plataforma impessoal, onde faltava o calor humano e a sensação de que existia alguém real do outro lado. A mudança ganhou um novo rumo graças a um comentário discreto no meu post de despedida do Sapo, onde me falaram do Blix como o novo ponto de encontro para onde a comunidade estava a migrar. E eu fui, devagar primeiro e depois de malas e bagagens. A verdade é que o acolhimento limpou qualquer solidão digital. Quando precisei de apoio com as questões técnicas, encontrei uma equipa eficiente, simpática e muito real.

Ontem, ao receber um email deles a pedir honestamente a opinião dos novos residentes para construir o projeto em conjunto, senti o conforto de ter tomado a decisão certa. Os meus textos não estão apenas guardados num servidor qualquer, ganharam uma nova casa num bairro acolhedor e com gente lá dentro. E que bem que sabe sair para o passeio e partilhar histórias com os vizinhos.

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