Dizem que o primeiro amor nunca se esquece, e no mercado imobiliário a regra aplica-se com uma precisão quase dolorosa. No meu caso, o primeiro namoro sério aconteceu com uma sobrevivente dos anos setenta, uma casa que exibia com orgulho um gosto decorativo profundamente questionável, uma cozinha que parecia ter saído de um filme de terror, pisos desnivelados e um isolamento térmico digno de uma cabana. Para melhorar o cenário, o primeiro andar, as águas-furtadas, estava retalhado por paredes por todo o lado, resultando num labirinto de divisões minúsculas onde a luz natural parecia ter fobia de entrar. Olhando de fora, de forma fria e pragmática, era o retrato perfeito de um desastre logístico.
Mas, e há sempre um "mas" que nos tolda o julgamento, a casa tinha um potencial absolutamente avassalador. A sala de estar era gigantesca, a localização era perfeita, o jardim e o espaço exterior eram enormes, e a perspetiva de poder personalizar cada centímetro quadrado transformou-se num íman. Apaixonei-me de forma tão cega que a minha mente simplesmente bloqueou a contabilidade elementar, ignorando a quantidade absurda de trabalho, tempo e dinheiro que uma empreitada daquelas exigiria. Passei dias inteiros num estado de entusiasmo febril, a fazer planos, a desenhar plantas imaginárias e a sonhar acordada, a idealizar tudo o que podia fazer com aquela maravilhosa barraca que tinha tudo para se tornar um palácio.
Uma coisa sobre mim da qual, na minha idade, já não tenho qualquer dúvida, é que sou uma apaixonada por causas perdidas. No imobiliário então, quanto mais houver a fazer, quanto maior for o desafio de projeção, mais eu me apaixono. Sou daquelas pessoas que vai procurar pela alma, pelo potencial escondido sob os escombros. Quando entro num lugar completamente destruído ou destratado, o meu cérebro entra automaticamente em modo sonhador e começa a planear tudo o que poderia ser feito. Intratável, eu sei.
A dose de realidade chegou quando fizemos uma visita com um perito, que rapidamente nos provou que, mais do que criatividade e força de vontade, aquela estrutura ia exigir muito mais do que estávamos dispostos a dar, tanto a nível de orçamento como de paciência. Decidimos colocar o projeto em pausa, mas com uma secreta arrogância estratégica. Convenci-me de que a casa era tão difícil de projetar que mais ninguém iria demonstrar interesse, ninguém iria ter um olho como o meu para o que poderia ser, e o plano seria esperar que a casa ficasse esquecida no mercado para, mais tarde, tentarmos propor um preço mais razoável, capaz de absorver os custos de todas as obras necessárias.
O plano parecia perfeito, mas o mercado imobiliário é tudo menos previsível. Quando decidimos que era altura de voltar a abordar o vendedor com a nossa proposta, a casa tinha acabado de ser vendida na semana anterior. Houve outro alguém que lhe viu a magia, o potencial. A história desta casa resume-se então a um quase. Um primeiro amor irracional, desmedido e ilógico, que, passada a paixão inicial, não era sequer isso tudo. Como tantos primeiros amores.