Crónicas da procura: quando o entusiasmo se torna obsessão

Se achavam que o meu namoro falhado com a casa dos anos setenta tinha sido um caso isolado, lamento desapontar-vos. Descobri que o meu coração imobiliário se apaixona com uma facilidade quase embaraçosa. Pelos vistos, basta-me ver uma nesga de potencial para eu ficar imediatamente convencida de que encontrei o amor da minha vida (outra vez!), esquecendo todas as lições do passado recente.

Desta vez, a história repetiu-se, mas com um choque de visões inegável dentro do próprio casal. Onde eu via charme, poesia e alma, o meu parceiro só ouvia o ranger irritante do parquet. Onde eu via história e personalidade, ele já estava a fazer contas de cabeça a uma lista interminável de reparações potenciais e orçamentos com demasiados zeros. Para ajudar à festa, a agente imobiliária era insuportável, e demonstrava uma preferência descarada por um outro casal que também andava a ver a casa. Essa combinação de factores fez com que o meu parceiro ganhasse uma antipatia imediata por tudo no geral.

Acontece que, quando tenho um coup de cœur, o meu pragmatismo entra em greve e ativa-se o bulldozer. A agente valeu-se da velha tática imobiliária de criar urgência, dizendo que tínhamos de decidir tudo para ontem. Em vez de analisar o cenário com distanciamento, eu absorvi essa pressão externa, agigantei-a com a minha própria teimosia e descarreguei-a em cima do meu parceiro. Fui implacável, insisti, argumentei e pressionei-o a aceitar fazer uma proposta, ignorando os sinais claros de que ele não estava, de todo, no mesmo comprimento de onda.

A proposta foi submetida e, como o destino tem um sentido de humor muito próprio, foi aceite. Foi precisamente aí que a bolha rebentou. Passados dois ou três dias, quando a adrenalina do momento baixou e a poeira assentou, olhei finalmente para o lado com os olhos limpos. Vi o silêncio dele, o desconforto genuíno e a total falta de entusiasmo por um projeto que devia ser uma celebração dos dois. Percebi, com uma clareza dolorosa, que o tinha atropelado na pressa de conseguir o que eu queria.

Felizmente, fomos a tempo de retirar a proposta, mas o episódio deixou uma marca importante. Este processo foi um espelho desconfortável sobre a minha própria personalidade, servindo para me lembrar de como posso ser obsessiva e ficar completamente cega quando coloco uma ideia na cabeça. A determinação é uma força incrível, mas quando se transforma num trator capaz de esmagar a sensibilidade e o espaço de quem está connosco, torna-se um perigo. Encontrar o nosso lugar tem de ser um caminho feito a par, com cedências e entusiasmos partilhados, e nunca uma imposição unilateral onde um avança à força e o outro é apenas arrastado na corrente.

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