Chegar a Paris foi um exercício de humildade e, acima de tudo, de visão estratégica. Depois de anos a gerir projetos de escala internacional, encontrei-me a aceitar um lugar no call center da Disneyland Paris, focado no mercado português, através de uma candidatura no LinkedIn. Sim, era um trabalho de entrada, muito distante de tudo o que já tinha construído, mas aceitei-o como a chave necessária para abrir a porta deste novo país. Com a vida sentimental estável e o meu parceiro finalmente empregado, as finanças deixaram de ser o desafio principal e sentimos que estávamos, finalmente, prontos para o projeto mais importante das nossas vidas: ser pais.
A gravidez chegou com uma rapidez generosa, como se o destino quisesse compensar as esperas do passado. No trabalho, embora a motivação profissional não fosse o motor principal, decidi abraçar a simplicidade das tarefas, foi uma escolha consciente de usar esse tempo para me dedicar inteiramente à vida que crescia em mim. No primeiro dia do mês de Outubro de 2022, o meu filho nasceu e, com ele, nasceu uma nova Catarina. Ele era um bebé doce, de sorriso fácil e luminoso, mas que parecia ter decidido que dormir era um conceito perfeitamente dispensável.
O regresso ao trabalho em janeiro chegou num piscar de olhos. Em janeiro, o meu parceiro na altura decidiu sair do emprego, com o objetivo de cuidar do bebé e preparar-se para um concurso da função publica. Uma vez aceite, o resultado ditou que teria de se mudar para realizar os estudos necessários a cinco horas de distância de casa.
Em outubro, a minha realidade transformou-se num teste de resistência. Ele partia durante a semana, regressando apenas aos fins de semana, e eu ficava sozinha na linha da frente. Reduzi o meu horário de trabalho para 80%, um ajuste necessário para conseguir conciliar a logística da creche, mas nada me preparou para a exaustão profunda da privação de sono. Foram tempos de uma abnegação enorme, sem família por perto, sem rede de apoio, apenas eu e o meu filho no silêncio das noites em claro.
Nesse isolamento, comecei a encontrar pequenos refúgios nas amizades que nasciam no trabalho, mas a verdadeira jornada foi interna. Aprendi a ser o porto e o barco ao mesmo tempo, a gerir o cansaço extremo com a doçura que aquele sorriso me pedia. Foi um período duro, de uma entrega que me esvaziou mas que, paradoxalmente, me começou a mostrar a força inabalável que eu teria de convocar para o que ainda estava por vir.