O arranque de mais um mundial de futebol traz-me sempre uma avalanche de memórias intensas, levando-me de volta a junho de 2018, quando me mudei para a Rússia por sete semanas. Instalei-me no Radisson de Moscovo com uma bagagem cheia de preconceitos e expectativas cinzentas, que a cidade rapidamente tratou de desfazer. Moscovo estava completamente transformada, vibrante, vestida com as cores do mundo e com uma atmosfera elétrica que só um evento desportivo global consegue criar. Os russos podiam não ser o povo mais caloroso do planeta, mas a energia que se sentia nas ruas era contagiante e a cidade transbordava vida.
A minha rotina durante esse período resumiu-se a um ritmo alucinante de trabalho consecutivo, praticamente sem dias de descanso. Os dias começavam muito cedo e terminavam a altas horas da madrugada, com jantares de meia-noite no quarto ou nos restaurantes do hotel. Dias da semana e fins de semana misturaram-se numa contagem perdida, onde o tempo passou a ser medido apenas por match days e rest days. Viajei para outras cidades onde o mundial acontecia, mas dessas viagens guardo pouco mais do que aeroportos e estádios, e os meus raros momentos de fuga resumiam-se a uma hora livre no centro comercial ao lado do hotel para fazer compras ou tratar das unhas. Mas a recompensa estava na mesa, a gastronomia era fabulosa, o peixe sempre fresco, a carne excelente, e tudo servido com uma generosidade e um cuidado que mostravam o quão bem os russos sabem receber.
O meu papel no mundial era delicado e político, estando eu responsável pelos convites para altos dignitários e chefes de estado, e acompanhando a secretária-geral. Por causa disso, andávamos com um security detail composto por agentes russos reformados que não falavam uma única palavra de inglês. Mesmo com a barreira linguística profunda, conseguimos encontrar uma forma própria de comunicar e criámos um laço tão forte que, anos mais tarde, ainda recebia mensagens deles no WhatsApp em russo, que eu traduzia com o Google para saber novidades daquelas vidas tão distantes.
No entanto, esta experiência foi também o cenário do período mais exigente da minha carreira profissional. Tinha um chefe acabado de chegar, influenciável e que criava barreiras constantes ao desenrolar das minhas funções. Vi-me obrigada a escalar situações várias vezes só para conseguir ter acesso às ferramentas básicas de trabalho. O telefone tocava dia e noite, a pressão era constante e a exaustão física e mental era de tal ordem que as emoções transbordavam a qualquer momento e sem aviso prévio. Perdi a conta às vezes que me escondi num canto para deixar cair as lágrimas antes de retomar o trabalho como se nada fosse.
Para tornar tudo ainda mais complexo, estava a terminar o meu MBA e tive de defender a minha tese por videoconferência a partir do meu quarto no Radisson, gerindo um cansaço que parecia não ter fim. Foi, sem dúvida, o equilíbrio mais frágil e desafiante que já tive de manter.
Mas há uma beleza silenciosa na forma como as coisas se alinham quando menos esperamos. No meio daquele isolamento e de todas as contrariedades, a forma como eu continuava a trabalhar, apesar de como era tratada, chegou aos ouvidos e aos olhos de quem acompanhava nos bastidores. Alguém com peso na organização percebeu o contexto e decidiu abrir-me uma porta, propondo-me uma mudança de rumo. Foi assim que, logo após o final do mundial, transitei para o cargo de project manager na FIFA Foundation, transformando o que parecia um beco sem saída numa das etapas mais felizes do meu percurso.
O regresso a casa trouxe o último embate, ao perceber que a ausência e a intensidade daquele período não tinham sido compreendidas na minha relação da altura. Perante o desgaste, o meu reflexo foi voar sozinha para Portugal, para me recolher junto da minha família e recuperar as energias. Demorei meses a conseguir digerir tudo o que tinha vivido sem ficar de lágrimas nos olhos de cada vez que revivia a experiência.
Guardo a Rússia de 2018 na memória com carinho, não porque tenha sido fácil ou perfeito, mas porque me ensinou que, mesmo quando nos sentimos mais vulneráveis, a vida arranja sempre uma maneira de reequilibrar o prato da balança. Resta-me também o privilégio e a nostalgia de ter conhecido e vivido um país vibrante, de atitude pacífica e de braços abertos ao mundo, antes que a história recente mudasse o rumo das coisas e fechasse (talvez para sempre) aquela janela no tempo.