O futebol é do povo, ou era

Este mundial de futebol está a deixar à vista de todos uma das mutações mais cínicas da história do desporto. A transição do jogo das massas para um produto puramente corporativo já não se esconde nos bastidores, exibe-se sem qualquer pudor em pleno relvado, em direto para milhões de espectadores.

O exemplo mais escandaloso desta mercantilização disfarçada está na banalização das pausas de hidratação. O que nasceu como uma medida de excepção, criada exclusivamente para proteger a saúde dos atletas em condições de calor extremo, foi transformado num protocolo sistemático. Atualmente, pouco importa a temperatura que se faz sentir no estádio, o jogo para de forma sistemática. Não há ali uma urgência médica, há sim uma obrigação comercial, uma oportunidade cirúrgica para enfiar publicidade televisiva pelos olhos dos adeptos dentro, quebrando o ritmo orgânico da partida em nome dos contratos de transmissão.

Nas bancadas, o cenário é de uma exclusão gritante. O preço astronómico dos bilhetes operou uma autêntica limpeza social nos estádios. O adepto tradicional, aquele que carrega a herança cultural do desporto, que canta e que cria a verdadeira atmosfera do futebol, foi empurrado para fora. Os recintos foram confiscados por marcas, pacotes de hospitalidade e convidados de conveniência que assistem ao jogo com a apatia de quem consome um produto de luxo descartável. A alma das bancadas morreu, substituída por um público de plástico filtrado pelo poder de compra.

Para fechar o espetáculo da hipocrisia, a tão badalada narrativa da união de culturas desmorona-se na primeira alfândega. Os episódios recentes de discriminação cultural, como o caso do árbitro internacional retido e barrado no aeroporto, ou as horas intermináveis de interrogatórios e burocracia humilhante impostas a comitivas de determinadas geografias, expõem a mentira da inclusão. O discurso oficial vende um mundo sem barreiras e focado na igualdade, mas a realidade operacional entrega preconceito e filtros geopolíticos.

O futebol está a ser asfixiado pela sua própria ganância. O que estamos a ver não é uma celebração do desporto, é um circo empresarial de grande escala que transformou uma paixão coletiva numa propriedade privada. ISto não é de agora, eu sei bem, mas o pior é que já nem sequer tentam disfarçar.

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