O meu corpo, os olhos dos outros

Há dias, cruzei-me com uma partilha de uma colega no Instagram que me fez parar e refletir profundamente sobre a forma como nos movemos em sociedade. Ela desabafava sobre o cansaço de ouvir observações constantes sobre o seu próprio corpo, especificamente de pessoas que insistem em comentar que ela está demasiado magra, como se o aspeto físico de alguém fosse propriedade pública ou um tópico de conversa legítimo para preencher silêncios. Esse desabafo expôs uma realidade desconfortável, a de que nenhum corpo parece estar a salvo do escrutínio alheio. Quer as pessoas rotulem alguém por defeito ou por excesso, o problema de fundo permanece exatamente o mesmo, que é a validação social de que é aceitável comentar a anatomia dos outros. No meu caso, o policiamento sempre foi feito na direção oposta, focado no facto de ter curvas, ou no eterno aviso disfarçado de preocupação.

Esta dinâmica fez-me encarar uma verdade desconfortável sobre mim mesma, que é o facto de toda esta bagagem acumulada me ter tornado, também a mim, gordofóbica. O meu primeiro instinto, quando vejo alguém que considero estar em excelente forma a queixar-se deste tipo de escrutínio, é pensar que não entendo o motivo da queixa, e dar por mim a desejar ter aquele corpo. Logo a seguir, vem o exercício necessário de desarmar esse pensamento, de me lembrar de todas as camadas que o compõem e de tentar perceber a razão pela qual ele surgiu. Em vez de me deixar invadir pela culpa de ter tido esse vislumbre de julgamento, procuro compreender que ele está profundamente enraizado em anos de desvalorização que interiorizei sobre o meu próprio corpo, sabendo que este esforço de desconstrução é parte fundamental do meu processo para me tornar uma pessoa melhor.

Esta fobia do corpo e o desconforto com a imagem são ruídos de fundo que me acompanham desde que me lembro de ter consciência de mim mesma. Desde miúda que ouvia no seio familiar alertas para ter cuidado, frases como "olha que vais ficar como o teu pai", uma associação que transformava a fisionomia dele num aviso e o meu crescimento num projeto de correção constante. Desenvolvi formas muito cedo, muito antes das outras raparigas da minha idade, e esse desenvolvimento precoce tornou-se um peso solitário. Em vez de encontrar orientação, empatia ou alguém que me ajudasse a compreender e a aceitar as transformações naturais do meu próprio desenvolvimento, fui apenas exposta a uma vigilância invisível que me fazia sentir inadequada. Criou-se ali um estado de espírito permanente, uma sensação constante de desconforto que se enraizou profundamente antes mesmo de eu ter maturidade para a questionar.

Com o passar dos anos, esse condicionamento mental manteve-se lá, como uma moldura invisível através da qual eu olhava para mim mesma, e ganhou contornos diferentes com a maternidade. A gravidez traz transformações profundas e, no meu caso, resultou num ganho de peso mais acentuado. O formato físico alterou-se, mas o processo psicológico que geria a minha identidade já carregava a bagagem daquelas velhas inseguranças da infância. É um ciclo complexo, precisamente porque a sociedade e a família têm uma força avassaladora na construção da nossa autoimagem. Quando crescemos com a perceção de que o nosso valor está de alguma forma indexado ao espaço que ocupamos visualmente, passamos demasiado tempo a tentar gerir as expectativas dos outros em vez de simplesmente vivermos.

Toda esta vivência, com as suas ranhuras e aprendizagens, ganha um significado completamente diferente agora que sou mãe. Hoje, ao olhar para o meu filho, sinto uma urgência enorme em ser o travão definitivo desta herança. Recuso-me categoricamente a deixar que ele cresça sob a sombra de avaliações físicas, venham elas de onde vierem e dirijam-se a quem se dirigirem. O meu papel é garantir que a nossa casa seja um espaço absolutamente livre de julgamentos estéticos, onde os corpos não são medidos, rotulados ou transformados em assunto, assumindo a responsabilidade de o ensinar que a aparência dos outros nunca é território para os nossos comentários ou palpites. Quero que ele cresça com a consciência clara de que o respeito pelo outro começa na nossa própria postura, focando-se naquilo que as pessoas verdadeiramente são, na sua generosidade, nos seus valores e na sua inteligência, sem nunca reproduzir ou interiorizar esta fobia social que tenta policiar a pele de cada um. A minha promessa para ele é a de construir um porto seguro, para que ele aprenda a olhar para o mundo com empatia e nunca tenha de passar a vida adulta a tentar libertar-se, ou a libertar os outros, de palavras que nunca deveriam ser ditas.

0