Dizem que o lar é onde o coração está, mas a verdade é que, para muitos de nós, o lar é onde finalmente conseguimos respirar sem pedir licença. Olho para Paris hoje e percebo que, pela primeira vez em décadas, não estou apenas a morar num sítio, estou a habitá-lo com todas as fibras do meu ser. É um sentimento estranho e avassalador, porque a verdade é que eu já não me sentia em casa em Portugal muito antes de ter partido em 2010.
Aqui, o ar tem outro peso, um peso que não asfixia, mas que nos segura ao chão com uma firmeza doce. Apaixonei-me pela honestidade desarmante deste povo, por este sentido de humor afiado que não tem medo das arestas e por aquela capacidade tão francesa de transformar uma simples tarde de chuva numa celebração do savoir-vivre. Há uma generosidade concreta na forma como Paris nos recebe, não é um acolhimento de fachada, é uma aceitação profunda da nossa individualidade, da nossa história e, acima de tudo, da nossa liberdade.
Adoro a forma como a cidade respira, o som dos copos a brindarem nas esplanadas ao cair da tarde, a luz que se reflete nas fachadas e a sensação de que, nesta mistura vibrante de culturas, eu sou apenas mais uma peça essencial do puzzle. Aprendi que a felicidade não se encontra na perfeição estéril, mas sim na verdade de um momento partilhado, numa discussão acesa sobre o mundo ou num passeio solitário onde a cidade parece sussurrar-nos segredos antigos.
Este país ensinou-me a viver de novo, com intensidade e sem reservas. Pela primeira vez, não sinto que o sítio onde vivo me está a fazer um favor por me deixar ficar, sinto que este lugar me pertence tanto quanto eu lhe pertenço a ele. Não foi apenas uma mudança de código postal, foi um encontro de almas. Estou finalmente enraizada nesta beleza brutal, neste coração francês que bate ao ritmo da minha própria liberdade, sinto, com uma clareza que me emociona, que a viagem terminou porque, finalmente, cheguei a casa.