Reli, há pouco, o texto que escrevi quando fiz vinte e oito anos. Dez anos separam esse registo do dia de hoje, e, embora a essência de querer devorar o mundo continue aqui, a mulher que olha para o espelho aos trinta e oito é profundamente diferente daquela de há uma década.
Aos vinte e oito, eu estava em pleno voo internacional, vivia mergulhada no ritmo de Zurique e, admito agora, vivia muito para fora. Era a Catarina que se apagava para que os outros brilhassem, a que não sabia dizer "não" e que achava que a entrega total era a única forma de amor e de sucesso. Se pudesse voltar atrás, daria um abraço apertado a essa versão de mim e dir-lhe-ia que a bondade sem limites é, muitas vezes, apenas falta de amor próprio.
Os trinta e oito trazem uma bagagem que os vinte e oito nem sequer conseguiam imaginar. Nestes últimos dez anos, mudei de país, fechei capítulos profissionais que pareciam eternos e abracei a maior viagem de todas: a maternidade. O nascimento do meu filho, em 2022, redefiniu as minhas prioridades e deu-me a força que me faltava para traçar linhas vermelhas onde antes havia apenas reticências.
A vida não foi generosa em linha reta, houve curvas apertadas, momentos de desilusão profunda e um início de 2024 que me obrigou a aprender o que é, realmente, estar absolutamente sozinha. Mas, curiosamente, é agora que me sinto mais inteira. Aprendi a colocar limites, a valorizar o meu espaço e a não aceitar nada menos do que o respeito absoluto pela vida que construí.
Aos vinte e oito, eu viajava pelo mundo para me encontrar, aos trinta e oito, viajo para dentro de mim e descubro que o meu porto de abrigo sou eu mesma. Já não sinto necessidade de provar nada a ninguém, apenas de garantir que o pequeno aventureiro que corre pela casa cresça a ver uma mãe que se orgulha da sua história, das suas cicatrizes e da sua firmeza.
Dez anos depois, a montanha-russa continua, mas agora sou eu quem segura o volante com as duas mãos, sem medo das descidas e com uma vontade enorme de aproveitar a vista.